PRECIOSISMO

 

 

Assim como os tempos mudam, também as vontades os acompanham (onde é que eu já ouvi isto?), o que faz com que aquilo que hoje nos é querido, estimado, enfim, precioso, amanhã não passe de um mero preciosismo.

E é precisamente de preciosismos que me proponho a escrever, aquelas tecnicalidades que divertem os cultos na mesma medida que aborrecem os néscios.

Há poucas coisas mais irritantes do que ter alguém a interromper-nos não para acrescentar algo de relevante à nossa dialéctica, mas sim para nos corrigir, ou apontar algum defeito de linguagem.

– É como te digo Tânia Micaela, com estas novas medidas do governo, as coisas ainda vão piorar, hádes ver hádes.

– Ó Bebiano Afonso, não é hádes, é hás-de!

Irritante, não é?

Mas tão divertido!

Bem, eu contra mim falo, já que sou um “preciosista” assumido e absolutamente inveterado, o que tem por base facto de ser intrinsecamente perfeccionista, o que por sua vez me faz abalar as entranhas de cada vez que ouço uma bela calinada, um daqueles estupendos pontapés na gramática, ou mesmo uma mais ou menos gravosa irregularidade histórica, sociológica, psicológica, etc. (em termos de matemática bem que me podem dizer as maiores barbaridades que eu como tudo como o lorpa que efectivamente sou… ninguém é perfeito, muito menos eu).

O que é facto é que se trata de um trabalho sujo e com eventuais consequências gravosas, em termos sociológicos, para todos aqueles que o decidem levar a cabo.

Mas alguém tem que o fazer, e do meu ponto de vista, esta é uma causa tão nobre como outra qualquer, pelo que é das poucas às quais me agarro com unhas e dentes.

É claro que não sou sectarista ao ponto de atropelar tudo e todos com as minhas (in)oportunas correcções. Tenho dois palmos de testa e sei muito bem avaliar quando uma causa é perdida, fundamentalmente, estruturalmente, inexoravelmente perdida.

A verdade é que há certos “monos” que vão prosseguir as suas, quiçá abençoadas, vidas envoltas em profunda ignorância, muito pelo simples facto de não quererem ser corrigidos, pois isso é absolutamente intolerável.

São aqueles que encaram a correcção e a sua subsequente aprendizagem, não como um processo saudável, mas como uma humilhação, um ataque pessoal.

E perante tamanha estupidez quem sou eu para tentar fazer a diferença?

“Pior burro é aquele que se recusa a aprender”.

Não, não perco tempo com esses casos.

Perco tempo (ou será que ganho?) sim com aqueles que julgo terem características intelectuais suficientes para não caírem nesses erros, o que resulta invariavelmente em riso, e num apenas ligeiro constrangimento por parte do faltoso(a).

Ligeiro ao ponto de a coisa não descambar, mas presente ao ponto de permanecer como referência futura.

O que não deixa de ser aprendizagem, com um pequeno travo de manipulação psicológica, mas ainda assim, aprendizagem. Aliás, como toda a aprendizagem teórica a que somos sujeitos ao longo da vida, se pensarmos bem.

Mas afinal que raio de justiceiro, paladino do preciosismo sou eu, e outros da minha laia?

Quem me encomendou o sermão?

Eu próprio.

Eu próprio já me encontrei do outro lado da barricada mais vezes do que aquelas que me orgulho de assumir.

Eu próprio tenho a minha própria agenda, a qual não deixando de ser egoísta ( o que se prova pela supracitada aliteração do pronome pessoal “eu”), é também de certo modo, nobre.

Romântico como sou, sonho com uma sociedade em que os preciosismos tenham a importância que hoje lhes queremos dar, e não a importância que hoje deveras têm.

Qualquer demonstração de ignorância é hoje visada e catalogada como preciosismo, ou então pelo seu epíteto mais comum, o verborreico “puta da mania”.

É a defesa habitual, à qual eu já estou absolutamente imune, seja porque o assumo com escárnio e sarcasmo:

“Não é mania quando se tem a certeza, quando muito, é a puta da certeza… minha querida e adorável abécula!”.

Ou porque simplesmente, para quem o merece, deixo a correcção no ar com pose altiva, taxativa, ao passo que lhe(s) viro as costas com uma petulância tal que não deixa dúvidas, na mais inocente das almas, quanto à minha indiferença perante a sua opinião acerca da minha pessoa.

Isto é, dar-lhes a provar do próprio remédio, mas com as palavras certas.

Resultado?

A abécula pode nunca deixar de o ser, mas cada vez que cometer esta ou aquela imprecisão, vai-se lembrar de mim.

Esta é a versão de aprendizagem com manipulação psicológica grosseira, o que, curiosamente, não costuma produzir efeitos tão satisfatórios como a outra.

Mas é tão divertida!

A arrogância só é exclusivamente detestável e contraproducente, quando parte de pressupostos intrinsecamente errados (um dia destes ainda hei-de ver esta frase “postada” no facebook com uma planície como pano de fundo).

De contrário, confunde-se muitas vezes com a verdade, no sentido em que ambas são por vezes difíceis de ouvir, doem.

Aliás, permitam-me terminar com uma citação de um grande mestre do preciosismo (quem já o leu, sabe bem do que estou a falar), que recentemente nos deixou, apesar dos seus riquíssimos 84 anos, cedo demais.

“Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”

Umberto Eco (1932-2016)

 

 

GENEALOGISMO

 

Ora viva!

Antes de mais, quero desejar-vos as boas vindas ao novo albergue dos meus disparates.

Todo o material anterior encontra-se agora também aqui alojado, pelo que podem consultar todos os meus anteriores despautérios (se não tiverem mais nada que fazer, naturalmente, talvez seja um pouco melhor do que ver o reality show da TVI).

Dadas as boas vindas, resta-me pedir desculpa por tão longo hiato de publicações, mas a vida de um homem não se faz só de blogues, e a minha também não.

Todavia já desde a quadra natalícia que me surgiu a ideia de retratar este “ismo” tão clássico, tão tradicional, tão nosso.

Isto porque é nessa quadra que, como aliás já tive a oportunidade de frisar no “ismo” anterior, nos reunimos com aquela parte da família com a qual não convivemos de forma tão assídua ao longo do ano. Aquela parte da família, muitas vezes composta em significativo número por pessoas mais velhas, tios, avós, tios-avós, tios que já mais parecem avós, em contraponto com os avós que mais parecem tios e por aí fora.

E se há coisa que une as gerações mais “veteranas”, é a constante “cusquice” da vida alheia, o que não pressupõe obrigatoriamente uma veia pérfida, ou qualquer tipo de maldade, mas sim uma defesa inteligente no sentido de, por essa via, não terem que falar das suas próprias vidas, quiçá muito mais tristes, ou desinteressantes.

E vai daí, toca a falar da Joaquina que ainda a semana passada estava a fazer compras no mercado, e hoje foi a enterrar.

– “Foi uma coisinha má que se lhe deu assim de repente, coitada, tão nova”.

E assim está lançado o mote para o genealogismo, não acreditam? pois vejam:

– Qual Joaquina? A que pertencia ao falecido Dr. Trancoso?

– Não, essa está bem de saúde, que isto vaso ruim não quebra, desgraçada faz a vida negra aos filhos, o Armandinho e a Clarisse que trabalham na mercearia da Dona Inês, e pobres coitados não têm um minuto de descanso que a velhaca está-lhes sempre a pedir favores a torto e a direito, e ainda por cima faz chantagem psicológica, vê lá bem, com tanto dinheiro que herdou do Dr. Trancoso, podia bem ir para um lar daqueles que mais parece um Hotel, mas em vez disso faz-se de pobrezinha e obriga os filhos a tratarem dela, até para ir cozinhar, e os pobrezinhos nem casar conseguiram, que isto as mercearias estão pela hora da morte.

– Mas então que Joaquina foi?

– A viúva do Engº Pessanha, filha do saudoso Asdrúbal das facas, aquela que era cunhada da Fatinha dos limões, a prima da Genoveva Peixeira.

– Então a prima da Genoveva peixeira não era a Lurdinhas pé descalço?

– Não mulher, estás a confundir com a Jacinta, a enteada do Gilberto Mãozinhas, esse é que ainda é primo em terceiro grau da comadre da sobrinha do finado Engº Pessanha.

– Pois, pois, já estou a ver quem é, estava confundida. Mas parece impossível, uma mulher tão nova, isto para mim foi saudades do marido, Deus os guarde em eterno descanso, que agora estão novamente juntos, era um casal tão bonito, muito educados e respeitadores.

– Ai isso era, como eles só a Felismina do poço, e o Asdrúbal pé-de-água, mas esses graças a Deus ainda estão rijos. Também pudera, já os pais eram gente rija, gente do campo que não comia cá porcarias como hoje em dia. Valha-me Deus, a falar nisso ainda me lembro do Tancredo, o filho da Aureliana dos tecidos, pobre rapaz é só pele e osso, aquilo é muito achacado a tudo que é maleita, mas também pudera, com uma mãe daquelas que nem um ovo sabe estrelar, bem a culpa não é dela, a mãe dela é que não lhe deu atenção nenhuma, até que fugiu e nunca mais ninguém a viu, quem lhe valeu foi o Antoninho Tanoeiro que dela se compadeceu e lhe levava uma malga de sopa às refeições.

– Pois sim, que ainda há gente com bom coração, já é de família, os Tanoeiros sempre foram muito humildes, mas sempre dispostos a ajudar quem precisasse.

– Ora isso é que é uma grande verdade, é como dizes, isto já vem do berço, muitas vezes só assim se conhecem as pessoas.

Quem nunca assistiu a uma conversa deste género?

Bem, a haver alguém, peço desculpa pela escolha do tema, compreendo absolutamente que se retirem, e prometo voltar para a semana com um “ismo” mais relevante.

Para os outros, aqueles que quase tiveram um dejá vu, chamo particular atenção para a última fala.

É que efectivamente ainda há muito quem julgue o livro exclusivamente pelo aspecto da capa, o que é mau, não só pelo facto de ser extremamente preconceituoso, no mais infame sentido da palavra, como também por fomentar o crescente processo de encapotamento social a que assistimos diariamente.

O que é facto é que os comportamentos desviantes ocorrem em todos os extratos sociais. Ser filho de Juiz não pressupõe que seja um rapaz ás direitas, estrito cumpridor das leis. Pode bem ser um ladrãozeco que se gaba aos seus correligionários de que: “O meu velho manda na bófia toda, tá-se bem!”.

E vice-versa, evidentemente.

Por muito que, teoricamente, um bom berço seja mais propenso a criar melhores pessoas, as condicionantes psico-sociológicas podem deitar tudo por terra num instante.

Não obstante, estas conversas vão-se mantendo, embora com menos pujança do que noutros tempos.

A origem deste “ismo” remonta aos tempos em que a população, bem como a proliferação de nomes, era extraordinariamente mais reduzida do que nos nossos dias, razão pela qual era necessário recorrer ao genealogismo, vulgo, história familiar, para perceber de que raio de “manel”, ou “Jaquim” se estava a falar.

Eu próprio ainda sou do tempo em que os números de telefone eram compostos por apenas 6 algarismos, posteriormente foi necessário acrescentar indicativos até aos actuais 9. De igual modo os códigos postais passaram a ter 3 algarismos extra.

Agora há muito mais nomes, muito mais pessoas, mas curiosamente, muito menos agregado familiar, muito menos raízes, as pessoas migram e emigram, e não há maneira de traçar um genealogismo correcto, minucioso e afirmativo como outrora.

Por tudo isto, a boa origem do genealogismo tem os dias contados, só os mais sábios, vulgo, pessoas de mais idade, mantêm esta tradição, na medida em que ainda vão conhecendo as pessoas da sua geração e gerações vizinhas, bem como a sua genealogia.

Hoje para se saber do Zé das Coibes não é preciso saber de quem é filho, até porque o moço anda num Golf 4 amarelo e pára no tasco do Quim Nando, diz-se que namora pá Jéssica Coimbrões, e passa a vida a fazer trocadilhos grosseiros com o nome da pobre coitada.

A má língua, a coscuvilhice, o intriguismo, como tudo o que é nefasto, arranja sempre maneira de se perpetuar, ainda que com técnicas, disfarces, ou roupagens diferentes.

Já o bom e velho genealogismo, bem, esse continua a fazer as suas compras no mercado, mas ninguém pode garantir que para a semana que vem ainda lá esteja.

 

 

 

CONSUMISMO


    
“Então é Natal, e o que você fez” … vai inexoravelmente influenciar a sua capacidade e poder de compra.
Por isso corra, salte, atropele, insulte, mas acima de tudo, venha às compras.
É Natal, a mais maravilhosa época do ano, vamos, pois, celebrar todos juntos e em comunhão esta data tão querida, tão quente.
Corações ao alto, e consumismo em nome de Deus.
É sem dúvida o santo graal de todo e qualquer comerciante, a época natalícia proporciona negócio para todos, isto porque o consumismo, não obstante o facto de produzir os seus tremendos efeitos um pouco por todo o ano, tem o seu expoente máximo nesta quadra.
É nesta altura do ano que o consumismo se senta no seu trono e admira as suas conquistas, desfrutando do seu vasto império. Mas ao contrário de “Alexandre o Grande”, não chora, pois há sempre todo um novo mundo para (re)conquistar permanentemente.
Aliás, só no nosso arcaico e desactualizado dicionário é que não surge “consumismo”, ou “prendas”, como sinónimo directo de “Natal”, pelo menos por enquanto…
Num futuro não muito distante, quase consigo imaginar um adorável mundo em que as crianças têm a certeza de que o leite vem do pacote, a madeira do Ikea, e que o Natal teve a sua origem no blackfriday, mas mudou-se a data porque a cor não combinava com o robe do velhinho da coca-cola.
Jesus? Quem é esse?
Ah, já sei é aquele senhor que fala muito mau português e que treina o Sporting, não é?
Se calhar fala-se do senhor nesta altura porque graças a ele, este ano parece que vai haver Natal em Alvalade sem o clube estar afastado do título, pelo contrário, estar bem lá em cima na tabela classificativa. Deve ser isso de certeza.
Independentemente de crenças religiosas, esta época devia significar, acima de tudo, família, paz e amor, mas na verdade não passa de um clichêpara disfarçar a verdadeira força motriz por detrás da noite de 24 de Dezembro.
Aliás, quando a malta acorda no dia 25, já não sabe muito bem o que é que há-de fazer, até porque as lojas estão fechadas e vai ser preciso esperar mais um dia para trocar as prendas recebidas. Já para não falar no facto de a grande maioria dos cafés estarem fechados, não dá para fazer nada, é uma seca que nunca mais passa.
O que interessa é aquele encher chouriços da noite de 24 até à meia-noite para que se chegue ao regozijo de abrir os presentes que tanto prazer deram a comprar nas semanas anteriores, e principalmente, … na véspera.
Isto porque apesar do pesadelo de trânsito que se vive nesses dias, toda a gente está sempre ansiosa por se meter nos vários centros comerciais, com o intuito de gastar o que se tem, e, ora bolas, é Natal, toca a gastar também o que se não tem, foi para isso que Deus nosso senhor inventou o crédito.
E em que é que se gasta?
Em coisas absolutamente necessárias, naturalmente.
Mas já agora gasta-se também em coisas necessariamente obsoletas passados uns tempos.
É o caos que nos move, o aglomerado de pessoas que sugam cada centímetro cúbico de oxigénio como se fosse o último, porque na verdade, até pode bem ser…
Os Multibancos estouram, as redes de telefone “crasham”, é a vitória do homem sobre os sistemas frios e infalíveis (ou será antes o contrário?).
“It´s the most wonderful time of the year”.
E é bem verdade.
Vamos pois, comprar, empurrar, atropelar e insultar, para no fim da refrega desejarmos um Santo Natal, e um próspero Ano Novo, independentemente da significância que cada um dá a tal desejo.
O que é preciso é haver bom vinho, até porque a época assim o exige, era o que mais havia de faltar ter que beber a zurrapa do costume numa noite tão solene, e com igualmente solenes convidados, aqueles que, Graças a Deus, só temos o “prazer” de ter sentados à mesma mesa uma vez por ano.
Toca a empanturrar, que nunca mais chega a altura de ver se o raio da velha se deixou de esquisitices, e este ano me oferece um tablet em vez das habituais peúgas.
É assim a magia do consumismo, desculpem, do Natal.
E só acaba no dia 26.
Tempos houve em que se consideravam encerradas as festividades no dia de reis, mas hoje em dia essa data serve apenas como deadlinepara remover os enfeites.
Na verdade o Natal, como já referi, acaba no dia 26, quando as lojas voltam a abrir, e se reúne novo frenesi à volta dos talões de troca das peças tão agradecidas, como interiormente reprovadas.
Isto porque o nosso consumismo é infalível, mas o nosso gosto nem por isso.
É, portanto e volto a frisar, a época da paz, do amor, e dos talões de troca.
E assim é que deve ser, temos mais é que relançar a nossa economia, por via de não economizarmos absolutamente nada, a não ser o nosso calor humano.
P.S.
Quero aproveitar este espaço para desejar a todos boas festas, cheias de tudo aquilo que mais falta vos fizer, até que se empanturrem.
Os meus “Ismos” vão de férias e só deverão voltar no início do ano que vem, talvez com novidades, quem sabe.
Até lá, façam-me um favor, leiam.
Eu vou fazê-lo, e bastante, acreditem.

UNANIMISMO



O unanimismo, para além do óbvio processo de unanimidade que todos conhecemos, é também uma corrente literária surgida no início do século XX em França, na qual se propunha uma maior generalidade do processo criativo, em detrimento do individualismo dos autores.
E é precisamente na transposição desta corrente para os nossos dias que eu me pretendo focar.
Lembro-me muitas vezes de um sketch dos “Gato Fedorento”, no qual vemos um transeunte que interrompe a sua caminhada ao ver uma fila de pessoas em frente a uma porta fechada de um prédio. Aguçado pela sua própria curiosidade, o indivíduo aproxima-se do aglomerado de pessoas, e interroga o último da fila:
– O senhor desculpe, esta fila é para quê?
Ao que o outro responde:
– Pois, na verdade não sei.
Posto o que torna a voltar-se para a frente, à espera, nem ele próprio sabe do quê.
E o mas curioso é que o transeunte, aparentemente satisfeito e esclarecido com a grotesca resposta, acaba por permanecer também ele na fila.
É este o ridículo a que chegámos. Tal é a nossa necessidade de aceitação nos grupos, mesmo que neles não consigamos encontrar o mínimo ponto de confluência com aquilo que nos distingue, até chegarmos ao extremo de já não reconhecermos em nós nenhuma característica distinguível.
Todos apregoam as vantagens de um mundo cada vez mais globalizado, e globalizante, no entanto, são muito poucos aqueles que prestam atenção ao unanimismo que tende a assentar sobre todos nós.
Isto é, há uma tendência mais ou menos encapotada de nos automatizar, de nos retirar tudo aquilo que nos confere aquele maravilhoso sentido de imprevisibilidade, o nosso individualismo, os nossos sentimentos relativamente a tudo e mais alguma coisa, e pior, a nossa capacidade crítica, a qual nos remete para um plano de aprendizagem constante, o qual por sua vez resulta em vozes críticas, e em revolta contra o rumo dos acontecimentos.
Estão-nos a tornar amorfos.
Como?
Criando bases para que todos façamos as mesmas coisas, para que todos ouçamos as mesmas músicas, vejamos os mesmos filmes, as mesmas séries e programas de televisão, para que escolhamos dar como certas as notícias provenientes de redes sociais e inclusivamente jornais que nem esse epíteto merecem.
Para que todos nos vistamos, grosso modo, da mesma forma, estratificando-se apenas o género e a faixa etária, o que resulta no facto de se para tal formos capazes de abrir os olhos, vermos todas as pessoas da metrópole e arredores mais ou menos “civilizados”, e portanto, “globalizados”, vestidas de forma semelhante ao seu semelhante em idade e género.
E o corpo estranho é invariavelmente aquele que pensa pela sua própria cabeça, e que ainda que não faça os possíveis para ser diferente apenas por birra, mas sim por um sentido estético muito próprio e individual.
Felizmente esses corpos estranhos, pelo menos os que assim se mantêm, são habitualmente imunes ao grande mecanismo de defesa da nossa unanimidade, a opinião alheia.
Mas não é fácil, até porque quem mais receia ser colocado no centro das atenções indesejadas, é invariavelmente aquele que mais o nega, seja por vergonha, ou mesmo por inconsciência dos seus actos.
– Quem, Eu? Eu cá penso pela minha cabecinha, quero lá saber o que os outros pensam, isso a mim não me interessa para nada!
E para prová-lo publica uma frase dentro dos mesmos moldes nas redes sociais, á espera dos muitos “likes” que os seus amigos coloquem na sua página.
Estamos em pleno século XXI, o século das tecnologias de ponta, da tão propalada aldeia global, dos grandes avanços científicos, não obstante, eu continuo a defender a minha dama, ou seja, o século em que nasci, ainda que já perto do seu fim, porquanto foi nele que surgiram grandes génios, que mudaram o panorama científico a vários níveis, deixando bases para que os cientistas actuais possam prosseguir o seu trabalho, muito embora, nem sempre com os mais nobres propósitos.
Como é o caso de um pesquisador polaco chamado Solomon Asch, o qual conduziu em meados do século passado vários estudos e experiências acerca do comportamento humano, nomeadamente aquele que lhe deu fama.
Asch propôs-se a responder à seguinte pergunta: “Até que ponto as forças sociais moldam as opiniões e atitudes das pessoas?”.
A experiência consistia, em traços gerais, em colocar um certo número de pessoas, todas elas supostamente voluntárias, a responder em grupo a uma série de testes psicotécnicos básicos.
De início todos acertavam na resposta correcta, mas à medida que as perguntas se iam sucedendo, todos começavam a dar respostas tão erradas, como óbvias a certas perguntas, para depois na rodada de perguntas seguinte voltarem a acertar, por forma a não criar um padrão que causasse desconfiança.
Apenas um dos indivíduos era efectivamente voluntário, todos os outros eram actores previamente instruídos a dar determinadas respostas, e o indivíduo ingénuo teria que decidir que resposta dar, independentemente da facilidade mediante a questão, e das respostas alheias, todas elas erradas.
Os resultados foram surpreendentes.
75% dos participantes escolheram a alternativa de resposta errada pelo menos uma vez;
37% dos participantes erraram a maioria das respostas erradas previamente dadas pelos actores;
5% dos participantes acompanharam a opção errada todas as vezes.
Números alarmantes, portanto, e todos eles do conhecimento de quem nos tenta adormecer no tédio e na previsibilidade, enfim, no unanimismo.
Todos queremos pertencer a um grupo, ninguém quer ficar de fora, por muito que isso nos prejudique, por muito que isso nos pareça incrivelmente errado.
Por isso, e em comunidade, já não “consumimos” cultura como chegou a acontecer, até porque a cultura permite-nos ter conhecimento deste tipo de factos, aliás, não é minimamente inocente o facto de todos os regimes totalitários, ou a caminho disso, adoptarem políticas de restrição à cultura, seja por via da censura assumida, pela simples proibição, ou no nosso caso, pelo constante corte de verbas, o qual acaba por estrangulá-la irremediavelmente.
E somos todos unânimes em aceitar isso, porquanto temos sempre os programas de esvaziamento intelectual para nos entretermos à tarde, á noite, ou a qualquer hora, pois há sempre câmaras a gravar todos os movimentos de todas as vacas e bois na pradaria, e consequentes implicações nas suas próprias relações sociais.
Permitam-me ser um pouco fascista, só um bocadinho.
Devia ser obrigatório ler o “1984” de George Orwell, assim como devia ser obrigatório analisar na escola as implicações do filme de animação “Wall-e”.
Talvez desse modo, pudéssemos ponderar um pouco sobre se é esse o caminho que queremos seguir.
Ou pelo menos, por uma vez, apenas nos limitássemos a… ponderar.
Já não era mau de todo.

EXPERIMENTALISMO


                
E que tal algo diferente?
Porque não colocar as celulazinhas constantes na nossa massa cinzenta a trabalhar?
Ceder ao desejo mais ou menos intrínseco de por a funcionar as nossas sinapses, por forma a obter ideias, e mais do que isso, a pô-las em prática, é algo que devemos a nós próprios.
Há-que experimentar.
Quem nunca ouviu alguém dizer: “Eu cá não quero morrer estúpido”?
Se bem que quanto a isso, em determinados casos, não há nada a fazer, porquanto, quem continua a confundir o conceito de ignorância, com o de estupidez, padece ele próprio de uma estupidez possivelmente irrevogável, e nesse caso, não há nada a fazer.
Já quanto a um eventual: “Eu cá não quero morrer ignorante”, a quimera ganha uma dimensão absolutamente intransponível, não obstante, mensurável.
Isto é, meus amigos, todos nós iremos um dia adormecer pela derradeira vez, e sem possuir todo o conhecimento possível e/ou existente, isso é um facto.
Todavia, podemos pegar no grande iceberg de ignorância que nos é atribuído quando ganhamos consciência pela primeira vez, e estudá-lo, palmilhá-lo, cartografá-lo se preferirem, até que nas nossas últimas horas reste “apenas” um pedaço extremamente significativo do calote submerso por conhecer, o que face às nossas parcas possibilidades, seria já uma estrondosa vitória.
Mas para recebermos a coroa de flores relativa à nossa melhor classificação possível, é necessário experimentar, ou pelo menos, ter a noção do que se passou com quem o fez, tanto para o bem, como para o mal.
O experimentalismo é o resultado prático do sobejamente conhecido chavão: “dar asas à imaginação”, isto porque a imaginação está sempre connosco, mais nuns do que noutros, concedo, não obstante, todos a possuímos embora nem todos a reconheçamos, ou a usemos.
E experimentar é reconhecer a nossa imaginação, emancipá-la, dar-lhe rédea solta, em suma, dar-lhe as tais asas para que possa sobrevoar e espalhar a sua magia.
Quando experimentamos, voltamos a ser o jovem rebelde qua a certa altura na nossa vida deixou de existir, voltamos a ter uma visão menos simplista das coisas, e tentamos mudar o mundo, pelo menos o nosso próprio.
E a vantagem em relação às atitudes dos malogrados anos da “parvalheira” é que o experimentalismo não se esgota em nenhuma faixa etária, nunca é tarde para experimentar, pelo contrário, quanto mais experiência de vida tivermos, menor será o grau de imprevisibilidade das nossas experiências, logo, menor a possibilidade de redundar em situações menos recomendáveis.
Soltar a imaginação, alterar comportamentos mecânicos, experimentar novas formas de chegar aos resultados pretendidos, ou mesmo atingir resultados nunca antes experienciados, mas igualmente agradáveis, é uma belíssima forma de nos mantermos intelectual e psicologicamente sãos, e quiçá, mais orgulhosos de nós próprios, porquanto está provado que sair da rotina em termos de raciocínio, prolonga a saúde dos nossos “macaquinhos”, vulgo, neurónios, o que por sua vez ajuda a prevenir doenças neurológicas daquelas que os alemães gostam de descobrir.
Se a partir de uma certa idade é bom fazer sudokus,melhor ainda é fazê-los com a mão esquerda (ou com a direita se forem canhotos), de pernas para o ar, ou enquanto se fazem panquecas com a mão que ficou livre, porque não?
Uma drageiazinha de experimentalismo todos os dias a seguir às refeições, pode efectivamente combater uma das maiores causas do nosso descontentamento, o tédio, a previsibilidade das nossas acções, o mecanicismo dos nossos dias.
Mas como é óbvio, todos os remédios devem ser tomados com moderação, e o experimentalismo não foge à regra. Não se deve experimentar só porque sim, e sobretudo, não se deve experimentar sabendo de antemão que o resultado tem um gigantesco índice de probabilidade de dar para o torto.
É precisamente aí que entra a boa e velha discussão entre o que é ser cobarde, e o que é ser racional.
É que a linha que separa a coragem da insensatez é tão visível quanto a do Equador, e vai daí que eu me esteja a borrifar para quem me chamar cobarde se não quero experimentar colocar a mão numa serra automática, para ver se o sistema de segurança da mesma está a funcionar correctamente.
Prefiro um dia mais tarde, no outono da minha vida, poder escolher com que mão quero fazer os sudokus.
Não estou, portanto, a advogar experimentalismos que de algum modo pressuponham algum tipo de risco associado que ponha em causa a saúde, ou até mesmo a vida de alguém, muito embora haja um número bastante significativo de viciados em adrenalina, que não encontram sentido para a sua existência, se não a puderem percorrer no fio da navalha.
Estou sim a falar do nosso espírito empreendedor, do “professor pardal” que existe dentro de nós, sempre acompanhado da sua “lampadinha” que nos tenta alumiar o caminho.
Ainda está para ser criado (pelo menos que se saiba) um computador que se equipare minimamente à nossa capacidade de raciocínio, mas isso de nada serve se teimarmos em não fazer as devidas actualizações, e nos restringirmos a correr sempre os mesmos programas, de forma aparentemente salutar e segura, mas sem qualquer estímulo prazeroso.
Quando tudo se torna banal, quando “ganhamos” uma incrível resistência a sair da nossa zona de conforto, tudo se torna desinteressante, e em última análise, tudo o que menos precisamos, é que a nossa vida se torne desinteressante.
Para evitá-lo, há que por a cabecinha a funcionar, por muito que nos possam chamar de loucos, até porque todos os grandes génios consagrados da humanidade, foram a certa altura tratados desse modo, não deixando por isso de ser geniais.
E por falar em génios, apraz-me dizer que não é louco aquele que pretende inovar através do experimentalismo, até porque, como dizia Albert Einstein: “Insanidade é continuar a fazer sempre as mesmas coisas, e esperar resultados diferentes”.

NEPOTISMO



Eis um “ismo” tão antigo como o próprio homem, se bem que nem sempre tenha assumido os contornos, eventualmente perversos, que hoje em dia lhe são reconhecidos.
O nepotismo é o favorecimento de pais em relação aos seus filhos, não obstante na vertente mais moderna se tenha expandido a outros familiares e inclusivamente a amigos e “amigalhaços”, daí que surja nos dicionários o “amiguismo” como sinónimo deste ancestral “ismo”.
Bem vistas as coisas, o nepotismo acaba por ser, na sua essência, algo bastante aceitável, normal e até louvável, porquanto a força dos laços familiares, bem como do amor que une os pais aos seus filhos assim o obriga.
Se partirmos do princípio que todos os pais tentam proteger, e mais do que isso, proporcionar aos seus rebentos, tanto quanto possível, oportunidades para que estes sejam felizes e bem-sucedidos nas suas vidas, então o nepotismo bem podia ser sinónimo de amor paterno.
Mas como o homem possui um incansável espírito empreendedor, conseguiu subverter um “ismo” que pressupõe amor incondicional entre pais e filhos, num outro que apela directamente à corrupção e favorecimento ilícito.
Este mundo sem nós não teria piada nenhuma.
No início era o verbo, mas com o passar do tempo veio o conceito, à medida que o homem se foi organizando em sociedade, ainda que nos primórdios da sua definição corrente, foi arranjando formas de se hierarquizar, com a prossecução dos proveitos sociais da sua linhagem como pano de fundo, o nepotismo foi-se estabelecendo como prática corrente, como se pode observar na evolução dos estratos sociais.
O pobre do almocreve seria sempre almocreve, assim como os seus filhos o seriam até ao fim dos seus pouco gloriosos dias, ao passo que o rei, teria príncipes, que por sua vez seriam também eles reis, e assim sucessivamente, o mesmo se passando com a restante nobreza, onde era habitual o pobre cachopo ainda não ter nascido e já ser conde disto, e senhor daquilo.
Aliás o regime monárquico é o mais famoso exemplo de nepotismo, e durou como sistema político mundialmente aceite durante vários séculos, tendo começado a cair em desuso apenas no último quartel do século XIX.
E porquê?
Porque o mundo ouviu falar de notícias vindas dos nossos amigos franceses, esses marotos, que vieram com uma fábula maravilhosa de igualdade, fraternidade e solidariedade, o que equivale a dizer que estavam fartos de ter sempre os mesmos comilões a assolapar tudo, só porque a sua real linhagem assim o obrigava.
Na verdade, a democracia foi a forma encontrada pela média e alta burguesia de acabar com a exclusividade nepotista da realeza.
E o povo, como sempre, achou que a sua voz seria finalmente ouvida, que a sua opinião seria preponderante (não seria!), e como tal estariam nos cargos certos, as pessoas certas, aquelas que por sufrágio adquirissem o direito ao poder político, sufrágio esse que resultasse da vontade do povo, sempre o povo, aquele que apenas interessa evocar de tempos a tempos, quando interessa pôr mãos à obra para obter novo mandato.
E no meio disto tudo, a democracia foi a forma encontrada por aqueles a quem o que sobrava em massa encefálica, escasseava em sangue azul, para chegar ao topo da cadeia hierárquica.
Desta forma o nepotismo tornou-se mais social, mas infinitamente mais encapotado, é que, do mal o menos, na monarquia não se enganava ninguém, não havia ilusões nem falsas promessas, era um sistema nepotista e pronto, quem não quiser, que venha ter connosco para inaugurarmos o nosso novo cadafalso que está para ali apenas a ganhar pó.
Com a democracia vieram os jogos de bastidores, e foi-se a honestidade, aliás toda a máquina democrática se esforça, antes de mais, por rejeitar quaisquer rumores acerca do nepotismo que nela impera, razão pela qual nos nomes dos partidos se apelar invariavelmente a conceitos em que povo se possa rever, com um subjacente sentido justo e democrático, como sejam: “social”, “socialista”, “popular” ou “trabalhista”, entre outros.
E nenhum partido alguma vez terá “nepotismo” na sua nomenclatura, pela simples razão de que tal seria um acto de honestidade muito pouco consentâneo com a “arte” da política.
Já dizia o grande Eça de Queiroz, que: “Políticos e fraldas de bébé devem ser trocados de tempos a tempos, geralmente pelo mesmo motivo”.
Todavia, e apesar de se terem criado regras cuja finalidade era o combate à “monarquização” da democracia, isto é, o eternizar de certos cargos ocupados por determinadas pessoas, como por exemplo a limitação de mandatos, isso acabou por ser apenas mais um punhado de areia atirado aos olhos dos eleitores, na medida em que o nepotismo permite que a mesma linhagem se mantenha no poder, e consequentemente, que os proveitos que daí advenham se mantenham onde devem estar.
Em última análise, pode-se baralhar as cartas as vezes que se queira, mas os naipes são sempre os mesmos, e o às de copas pode não ser trunfo nesta rodada, mas continua a ter o poder de cortar qualquer duque, terno ou quina, influenciando o jogo directamente, até voltar a ser trunfo, quiçá na rodada seguinte.
E assim se vai vivendo o nepotismo no nosso dia-a-dia, nos bancos, nas empresas, nos governos, enfim, em todo o lado, porquanto todos somos filhos de alguém, e todos somos melhores que alguém em alguma área, o que não quer dizer que obtenhamos as suas funções, até porque a “meritocracia” é hoje em dia mais utópica do que o comunismo, o que não é fácil.
Querem saber o mais curioso?
O nepotismo é tão secreto, tão escondido e tão encoberto (ainda que por vezes com os pés de fora), que quando alguém decide não estar com tretas, e assumir o poder alto e a bom som, afirmando de viva voz que assim o pretende manter, para si e para os seus filhos, em vez de ser reconhecido como um nepotista honesto, é imediatamente apelidado de déspota.
Curioso não?
A única vez que o nepotismo se assume como realmente é, deixa de o ser, para ser outra coisa ainda mais asquerosa.
Quanto a mim, provavelmente não escreveria estas coisas se tivesse sido agraciado por generosas doses de nepotismo, mas como isto não é para todos, limito-me a escrever estas linhas, orgulhoso de ter sido presenteado pelo meu pai com uma lindíssima caneta shaeffer de tinta permanente que tem a minha idade, e que se não se eternizar nesta linhagem, pelo menos permitir-me-á continuar a escrever muitas, e agradecidas linhas.
Afinal, ainda há nepotismo do bom.

OPORTUNISMO


Uma das coisas mais interessantes que podemos concluir acerca das nossas tendências comportamentais, é que, na sua essência, são extensíveis a todos nós, independentemente da posição ou status social que possamos ter, já as ramificações que daí possam advir é que tendem a ser distintas, mas unicamente em termos de proporção.
Quero com isto dizer que todos os “ismos” em geral podem assumir um papel mais ou menos predominante nas nossas vidas, e o oportunismo em particular também.
Isto é, trata-se de oportunismo quando alguém vai na rua e repara que um transeunte distraído não se deu conta de que deixou cair uma nota de 5 euros, aproveitando a oportunidade quiçá para pisar a nota, e disfarçadamente fingir apertar os cordões dos sapatos, para depois recolher a nota sem que ninguém se dê conta.
Da mesma forma que se trata de oportunismo aproveitar uma área cinzenta da lei ou da constituição, por forma a colher frutos corporativos, empresariais, económicos, enfim, políticos, que de outra forma habitualmente não poderia colher.
Dois tipos de oportunismo absolutamente distintos?
Só na proporção.
Um deles provavelmente servirá para pagar umas “jolas” e uma sande de courato, enquanto o oportunista se gaba da sua boa sorte e superior astúcia.
O outro obterá alguns proveitos visíveis, e muitos outros dos quais apenas se poderá desconfiar, enquanto tenta defender a sua honra e superior sentido ético e de respeito pelos preceitos da lei.
Nenhum deles é fundamentalmente um crime, quando muito pode ser eticamente questionável, mas apenas por parte de quem por tal se sente lesado, pois o oportunista escuda-se sempre em chavões:
– “Achado não é roubado”.
– “A lei é clara quanto a esta matéria”.
Processem-nos.
A grande comichão que o oportunismo cria nos seus “lesados”, é precisamente o facto de não terem sido eles a protagonizá-lo. Mesmo que a sua estrutura ética e/ou moral seja significativamente sólida, mesmo que o anjinho situado no seu ombro direito seja mais persuasivo do que o diabinho que se encontra no lado oposto.
Fica sempre aquela sensação do: “Ai vale? eu também sei jogar duro se necessário, eu também tenho força!”.
O que equivale a dizer: “eu também consigo ser pulha, ora testa-me!”.
Nesse caso o diabinho fica provido de outros factos que sustentem a sua argumentação:
– “Sim, sim, já sei que gostas muito de ouvir as patranhas desse anjolas aí do lado, mas vai por mim, senão lixas-te outra vez, quem te avisa, teu amigo é”
Acaba por ser o mesmo princípio da burla, em 99,9% dos casos só é burlado aquele que por um instante que seja pensa ser mais inteligente do que o burlão, pensando inclusivamente que é ele que está a burlar (estou obviamente a falar de burlas, não dos degenerados que atacam e agridem pessoas idosas nas aldeias do nosso país, esses não são burlões, são animais).
Com o oportunismo passa-se exactamente o mesmo, e dói, dói muito ver alguém a passar-nos a perna, a fazer uma entrada a pés juntos que nos projecta indelevelmente para o chão a uma velocidade considerável, muitas vezes sem que nos apercebamos no imediato dos estragos que possa provocar, porque ainda está quente, e ainda por cima sair a jogar, porque o bom do juíz considerou que se jogou primeiro a bola, e o consequente contacto era inevitável.
A reacção é invariavelmente a mesma:
– “Eu dou-te a inevitabilidade ó habilidoso!”
Mas na maioria dos casos as intenções ficam-se pelas palavras, e começa a crescer uma pequena úlcera à base de rancor, de uma certa autocomiseração e bem temperada com generosas porções de: “À primeira quem quer cai, à segunda cai quem quer, a mim não me lixam mais”.
Há, no entanto, aqueles que efectivamente retribuem, pagando a conta por completo, pois só nesse caso se consagra o princípio da má fé, e a lei nesse aspecto costuma ser implacável (pelo menos com alguns).
Tenhamos em consideração um princípio tão simples quanto essencial.
As leis são tão idóneas e eticamente intocáveis quanto os homens que as fazem, e principalmente, são tão idóneas e eticamente intocáveis quanto os homens que as aprovam.
Por isso a lei protege invariavelmente o oportunismo, ao passo que condena veementemente outro tipo de crimes, chamemos-lhes, crimes de ocasião, que são basicamente os crimes perpetrados pelo ignóbil desgraçado que não tem o que comer, ou que por qualquer razão não tem onde cair morto.
Nesse caso a sabedoria popular sustenta que: “A ocasião faz o ladrão”.
Já no que diz respeito a casos de oportunismo claro e evidente, há vários adágios populares que o consubstanciam, inclusivamente com uma legitimidade premente, desde o mais prosaico; “Quem vai ao ar, perde o seu lugar”, ao mais snob; “A oportunidade faz o negócio”.
Dá para ver a diferença não dá?
Se é na ocasião temos ladrão, mas se é na oportunidade temos negócio, e sabemos todos que as pessoas de negócios são geralmente pessoas de bem.
E se a isto juntarmos o sobejamente conhecido “segredo”, que advogam os sábios, se trata nada mais nada menos do que da “alma do negócio”, então temos na nossa infindável sabedoria popular a prova cabal da promiscuidade entre o oportunismo e a lei que o protege, em oposição à moral e ética de La Fontaine, de Andressen, e de tantos outros que se esforçaram por manter um imaginário da nossa meninice onde quem não tem carácter não leva a melhor, pois efectivamente, este mundo não é para crianças, temos mais é que crescer e aparecer, para podermos tratar de assuntos de gente adulta.
Não podemos perder essa oportunidade.
P.S.
O terrorismo é daqueles “ismos”, sobre os quais dificilmente alguma vez me pronunciarei para além deste post scriptum, independentemente de ser de extrema oportunidade fazê-lo em circunstâncias como esta, em que uma vez mais se encontra “em voga” face aos recentes acontecimentos.
Mas não o faço precisamente por isso.
O terrorismo vive da publicidade que obtém, se não causar impacto mediático não tem eficácia, e deixa de fazer sentido.
Só pensa o contrário quem julga que ainda estamos a lidar simplesmente com uma questão religiosa, e não com interesses políticos obscuros.
Não sou defensor da censura, mas também sei dos perigos do sensacionalismo, e da minha parte não haverá mais nenhum contributo.